A escada pressurizada costuma ser um dos sistemas mais importantes de um edifício alto e um dos menos lembrados. Os ventiladores ficam em uma casa de máquinas que quase ninguém visita, os dutos estão escondidos e, em condições normais, nada acontece. Por isso, é comum que o sistema passe anos sem uma medição, até que a vistoria do AVCB se aproxime.
O risco é claro: um equipamento que não é posto para funcionar pode falhar justamente no dia em que a escada precisar estar livre de fumaça. Entender como ele funciona ajuda a perceber por que os testes não são burocracia.
O que a pressurização faz
Em um incêndio, a fumaça costuma ser mais perigosa e mais rápida do que o fogo. Ela se espalha pelos corredores e tende a invadir a escada, que é a principal rota de saída.
A pressurização cria uma diferença de pressão entre a escada e o pavimento. Com ventiladores insuflando ar, a pressão interna fica maior, e a fumaça é empurrada para fora pelas frestas da porta corta-fogo. Quando a porta abre, o ar sai pelo vão e dificulta a entrada da fumaça.
Em São Paulo, o sistema segue a Instrução Técnica 13 do Corpo de Bombeiros e a ABNT NBR 14880. A IT 13 define valores objetivos, e é aí que muitos sistemas antigos ou mal mantidos deixam a desejar:
- Pressão de 50 Pa no sistema de um estágio. Em dois estágios, 15 Pa no primeiro e 50 Pa no segundo, que é o de emergência.
- Limite de 60 Pa com as portas fechadas, para que a pressão não dificulte a abertura.
- Velocidade mínima de 1,0 m/s do ar saindo pelas portas abertas.
Ou seja, tanto a falta quanto o excesso são problema. Pressão de menos deixa a fumaça entrar. Pressão demais pode impedir que uma pessoa abra a porta, sobretudo crianças, idosos ou pessoas com deficiência.
O que a IT 13 pede de manutenção
Aqui a instrução é mais direta do que muita gente imagina. Ela coloca a responsabilidade integral pelos cuidados com o sistema sobre o proprietário ou seu representante legal, como o síndico. E estabelece, entre outros pontos:
- colocar os sistemas de emergência em operação semanalmente, para garantir o funcionamento de cada grupo motoventilador
- verificar os diferenciais de pressão uma vez por ano
- incluir os cuidados com os equipamentos no programa de manutenção anual do edifício, apresentado na solicitação de vistoria
- prever condições para testar cada motor separadamente, quando houver motores duplicados
A manutenção deve alcançar o conjunto, não só o ventilador. A própria IT lista detectores de fumaça, mecanismo de comutação, grupo motoventilador e correias, dutos e ancoragens, sistemas de energia de emergência, portas corta-fogo e o escape de ar acionado automaticamente, quando existem.
Além disso, ao final da obra, quem instalou o sistema deve entregar uma lista de verificação dos procedimentos e os manuais em português. Se o prédio nunca recebeu esses documentos, vale procurá-los ou reconstruir essa base com um profissional.
Como é feita a verificação
A forma de testar faz diferença. A IT 13 deixa claro que um teste de fumaça, sozinho, não comprova o funcionamento. O que comprova são as medições.
Com o sistema em operação, mede-se o diferencial de pressão com as portas fechadas e a velocidade do ar nas portas abertas, com instrumentos adequados e condições controladas. Em sistemas de dois estágios, as medições são feitas no estágio de emergência. O valor medido deve ser de pelo menos 90% do projetado, sem passar de 60 Pa.
Quando o resultado diverge do projeto, a investigação passa por medir a vazão dos ventiladores e das grelhas e procurar frestas e escapes de ar.
Antes das medições, uma inspeção do conjunto costuma revelar boa parte dos problemas. A IT traz um modelo de relatório de comissionamento e inspeção periódica com itens como:
- ventiladores, inclusive os conjuntos em duplicata
- tomada de ar, que não pode captar fumaça
- dutos, grelhas e registros
- suprimento elétrico e gerador
- dispositivo que limita a pressão
- detecção e alarme
- condições da casa de máquinas, que deve ter acesso, iluminação e nenhum material armazenado
Energia e gerador: a parte que não pode ficar de fora
De nada adianta o ventilador estar perfeito se ele parar quando a energia cair. A IT 13 prevê grupo motogerador automatizado, com partida sozinha na interrupção da energia normal e autonomia de 4 horas, conforme a ocupação e a altura da edificação.
Nem todo prédio está obrigado a ter gerador para esse fim. Edifícios residenciais de até 80 metros, por exemplo, são dispensados, assim como outras situações previstas no anexo da IT. Mesmo assim, a pressurização deve ter alimentação independente, para não parar quando a energia geral do prédio for desligada.
Quando o gerador existe, ele faz parte do teste. A manutenção precisa confirmar que ele parte, assume a carga dos ventiladores e sustenta o sistema. Testar a pressurização apenas com a energia da rede deixa a pergunta mais importante sem resposta. O mesmo gerador pode atender outros sistemas de emergência, o que torna essa verificação ainda mais relevante.
O acionamento precisa ser testado de ponta a ponta
A pressurização deve entrar em operação automaticamente. Pela IT 13, a detecção de fumaça é o acionamento principal, com detectores ao menos no hall de acesso à escada e nos corredores principais, instalados do lado de fora da porta corta-fogo. A central precisa acionar o sistema assim que receber o sinal, sem esperar a confirmação da vigilância.
Outros pontos devem entrar na verificação:
- A parada do sistema em emergência só pode ser manual.
- O sistema deve ter acionador remoto na sala de controle ou na portaria e no compartimento do ventilador.
- Portas mantidas abertas por destravadores eletromagnéticos devem se soltar.
- A ventilação e o ar-condicionado devem parar na emergência, para não espalhar fumaça.
Vale simular o evento real: acionar um detector e acompanhar toda a sequência, do sinal na central até a medição na escada.
Os problemas mais comuns
Alguns defeitos aparecem com frequência e, muitas vezes, têm solução simples:
- portas corta-fogo calçadas, com frestas além do normal ou com mola desregulada
- quadro de comando deixado em manual ou desligado depois de uma manutenção
- correias gastas ou frouxas e motores que não giram há meses
- grelhas fechadas, sujas ou obstruídas por reformas
- casa de máquinas usada como depósito
- tomada de ar perto de nova fonte de fumaça ou gases
- detectores cobertos, retirados ou sem ligação com a central
- falta da sinalização "ESCADA PRESSURIZADA" nas portas
Outro cuidado envolve as obras. Fechar uma abertura, trocar uma porta ou mexer em um duto pode alterar o equilíbrio do sistema. Depois de intervenções desse tipo, o ideal é medir novamente.
Como organizar a rotina
Na prática, uma boa gestão do sistema passa por poucos passos:
- Reúna o projeto, os manuais e os últimos relatórios.
- Inclua o sistema no programa anual de manutenção do edifício.
- Defina quem faz a operação semanal e como ela é registrada.
- Programe a medição anual dos diferenciais de pressão.
- Inclua o gerador e o acionamento pela central nos testes.
- Trate as pendências antes de iniciar a renovação do AVCB.
Lembre-se de que a IT 13 pede a responsabilidade técnica do profissional nas solicitações de emissão e renovação da licença. Ter o histórico em dia facilita esse trabalho e reduz o risco de surpresas na vistoria.
Se a escada do seu prédio é pressurizada e não há registros recentes de medição, comece por uma avaliação do sistema instalado. A equipe técnica da Itelligence Group pode ajudar a verificar o funcionamento e a organizar a manutenção de forma segura e coerente com o projeto aprovado.